Recebi por e-mail de uma brasileira, que também mora aqui na Holanda, este texto muito interessante sobre os problemas migratórios. Semana
passada foi muito dificil para mim. O inverno chegou, a escuridão tem
tomado conta do dia. O curso de holandês está cada dia mais chato.
Frustração em receber respostas de "Sinto muito mais a vaga já foi
preenchida", ou "estamos contratando apenas quem fala holandes", etc
etc etc.A saudade da família então...parece que nunca mais vai chegar
Janeiro, quando vamos para o casamento da minha irmã no Brasil.
Beijos e Boa leitura

Perguntas:
1)
Inicialmente,
gostaria de uma breve apresentação pessoal: sei que a senhora é psicóloga, mas
onde nasceu? Idade? É casada? Formou-se aqui no Brasil mesmo? Com que idade
deixou o país para morar no exterior? Como foi esta experiência para alguém que
ainda não era uma especialista no tema?
Oportuna
esta pergunta. Sempre começo me apresentando, até para contextualizar de onde
nasceu minha atuação na área da Psicologia Intercultural. Costumo dizer que são
esses encontros que todos temos com o destino, e só ficamos sabendo encima da
hora! Fiz o programa au-pair, em 1989 e acabei
fazendo a faculdade em Madrid (Psicologia). Durante a
faculdade fiz estágio durante 1 ano no Centro de
Acogida a Refugiados y Exilados e nesse momento comecei a me
questionar como a psicologia nunca havia parado para estudar os fenômenos
migratórios, os processos de adaptação, as relações hóspede-hospedeiro. E de
fato havia um área que estava inciando, a chamada Cross-Cultural Psyhology, ou Psicologia Intercultural. Ela trazia
respostas bem mais concretas ao drama dos estrangeiros do que qualquer outra
escola psicanalítica ou cognitivista. Depois de terminar a faculdade, fui ser
voluntária numa grande universidade
belga (Louvain-la-Neuve) e lá trabalhei no Centre
des Etudiants Etrangers, cuidando da adaptação do estrangeiro que
chegava e de algumas famílias hospedeiras. Foi muito interessante porque
me ensinou muito à respeito da adaptação dos hospedeiros do
quanto também é difícil para eles. E
finalmente Roma foi minha última cidade de acolhida,
onde novamente fui voluntária durante 18 meses num Programa do Conselho Europeu
(Progetto Gioventtu per l ´Europa)
fazendo a preparação dos italianos para fazerem interc6ambio dentro da
Europa. Por conta desse voluntariado
eles me presentearam com um curso de Especialização em Educação Intercultural. Assim
que meu trabalho tem duas ciências profundamente complementares: a psicologia
intercultural que nos ajuda a compreender
perfeitamente os fenômenos migratórios que acontecem conosco e com os
hospedeiros e a Educação Intercultura, que nos ensina
novas maneiras de se comportar nos encontros interculturais. A Ed. Intercultural
é como se fosse a antiga Moral e Cívica, só que voltada para o cidadão do
mundo.
2)
A personagem Sol
da novela das oito América, protagonizada pela atriz Débora Secco, mostra a
luta de um brasileiro para conseguir sair do país em busca de melhor condição
de vida. O sonho de Sol é o mesmo de muitos outros brasileiros que acalentam a
ilusão de uma vida feliz longe daqui. A senhora acredita que a experiência de
morar em outro país é sempre benéfica?
Difícil
dizer que uma experiência em outro país é sempre benéfica. Toda migração tem pelo menos 3 características básicas: é uma
experiência de risco, de ambivalência e de solidão. Ambivalência porque são ganhos e perdas profundas ao mesmo tempo.
Na verdade, um primeiro momento de muitas perdas, e paulatinamente os ganhos
vão dando lugar a elas. Todos que saem do seu país sabem das coisas que vão
deixar mas não sabem as coisas que vão ganhar. Por isso ninguém tem 100% de
certeza de que essa é a escolha certa.
Por isso choro e riso, festas de despedida com momentos de alegria,
orgulho e outros de medo e angústia. A outra característica é a solidão: tudo o que você conquistar
(desde aprender a pedir um pedaço de pão na padaria), até amigos, pessoas que
te querem bem, o idioma, a geografia, o saber orientar-se dentro das cidades,
tudo são conquistas pessoais e instransferíveis. Da mesma forma as lágrimas,
arrependimentos, dores e desamparo são únicos. Não há nada nem ninguém que
possa mensurar ou compreender esses sentimentos. Eu poderia passar anos
contando como foi viver na Itália, na Bélgica ou na Espanha mas nunca ninguém
poderá captar a riqueza do que foi viver por lá. E finalmente o risco: estamos lidando com gente,
gente que vai, gente que recebe, que emprega, que acolhe em suas famílias
vountárias. Não há como prever o comportamento destes hóspedes e destes
hospedeiros. Portanto dizer que é sempre benéfica seria um pouco precipitado de
minha parte. O que posso dizer é que é sempre enriquecedora, mas que é
fundamental saber lidar com o risco, com a solidão e com a ambivalência. E quem
não se sente disposto a vivenciar esses sentimentos então provavelmente não será benéfico.
3)
Em geral, quais
as dificuldades enfrentadas por um imigrante brasileiro nos países tidos como
de primeiro mundo?
O
encontro intercultural entre brasileiros e países de primeiro mundo são na
verdade um conflito de valores e crenças culturais. Posto que cultura é
comportamento todo nosso modo de amar, viver, perdoar, decidir, governar,
tocar, vestir estão impregnados do que chamamos “jeito de ser”. São categorias
culturais que estudamos detalhadamente na Psicologia Intercultural. Então
vejamos: nós brasileiros, assim como gregos, malasianos, filipinos, portugueses
fazemos parte de um grupo cultural chamado coletivistas. Outros países são
chamados de individualistas (como os americanos, australianos, canadeneses,
franceses). O que nos afasta destes povos é justamente o conflito entre
individualismo & coletivismo. Nós, coletivistas, temos uma pequena
distância corporal ao conversarmos, nos tocamos, apreciamos a exposição
corporal, andamos em grandes grupos, perguntamos de nossas vidas, trocamos favores,
somos comunicativos, afetivos, temos um senso de privacidade bastante pequeno.
Eles, individualistas, não apreciam nem o contato nem a exposição corporal,
andam em grupos pequenos, o senso de privacidade deles é enorme, não há troca
de favores ou jantares íntimos nas casas dos amigos. Isso faz com que os
brasileiros sintam-se rejeitados e
emitam julgamentos como : “Eles são frios, arrogantes, egoístas, moralistas,
reprimidos sexualmente, só pensam neles, etc...”Ou seja: não há a compreensão
do relativismo cultural, de que talvez existam outros modelos de relacionamento
e de amizade que sejam válidos. Compreender que podem fazer amigos sim, mas
amigos “individualistas” e não “coletivistas”. Lembro de um grupo de
engenheiros brasileiros com quem trabalhei e que estiveram em Londres por 2
anos. Pelas tantas, um deles desesperado por não ter conseguido um amigo sequer
na empresa, resolveu convidar alguns colegas para uma janta em casa. Este
brasileiro sentia-se profundamente desamparado com aqueles pensamentos “ninguém
gosta de mim, por que não me convidam, etc.etc...” Durante o jantar um dos
britânicos, emocionado, declarou: “Puxa! Em 20 anos de empresa é a primeira vez
que um colega me convida para jantar em sua casa...Que boa iniciativa,
obrigada!” Ou seja: não havia nada de errado com o brasileiro e ele pôde
compreender ali que é a forma deles serem, inclusive entre eles também, que
determina a forma de comportarem-se como grupo.
4)
Os atentados e a
onda de terrorismo tem contribuído para aumentar as dificuldades de ingresso e
permanência nos Estados Unidos. A fiscalização está, mais do que nunca,
rigorosa apesar dos imigrantes serem mão de obra barata. Na sua experiência, os
brasileiros são bem-vindos em outras nações? Em que lugares eles encontram
maior resistência?
Como
um todo, os brasileiros são bem quistos em todos os lugares do mundo. Temos a
fama de simpáticos, alegres, generosos, comunicativos, afetivos. Acho que
encontramos maior resistência em países com distanciamento cultural maiores, ou
seja, quanto maior a diferença cultural. Por exemplo: somos um povo
profundamente etnocêntrico. Esse é um dos braços fortes da Psicologia
Intercultural: compreender a força do etnocentrismo em nosso comportamento. Daí
nossas frases tipo “Não estou acostumado...Eles são muito estranhos... Não
consigo me habituar..”Como se os esquisitos fossem sempre os outros. Isso é a
antítese da intercultura. Nossa atitude em querer ditar as regras, em acreditar
que nós estamos certos e que o resto do mundo não sabe fazer as coisas atrapalha
nosso approach frente às outras culturas. Bem, outro povo profundamente
etnocentrista é o norte-americano. Daí o confronto maior: eles além de
etnocêntricos são nacionalistas, nós apenas etnocêntricos e pouco
nacionalistas. Mas o suficiente para o conflito ser grande. Ou seja: países
como Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália onde o etnocentrismo é forte o
brasileiro encontrará resistência porque
ele próprio agirá à favor dessa resistência. Entretanto países como Bélgica,
Austrália, Nova Zelândia a acolhida será melhor, menos etnocentrismo, menos
conflito com os brasileiros.
5)
No que a
experiência de viver no exterior, mesmo que por um período curto, difere de uma
simples viagem de turismo?
Fundamentalmente
a perspectiva. No turismo tu tens a prerrogativa de gostar ou não, e se não
gostar, não volta mais. A perspectiva correta do intercâmbio é: como vou me
ajustar? Porque se você ficar se perguntando gosto ou não gosto, viverá em
dilemas intermináveis. Foi para morar, viver, trabalhar? Bem, há que
ajustar-se. E a segunda perspectiva é: no turismo tu conheces a cultural de
forma epidérmica – quase mercantilizada. Os hóspedes compram, os hospedeiros se
vendem. E veja, não há problema nenhum nisso, por isso o turismo é tão
apreciado. Sabe-se o que se está comprando.
No intercâmbio, como já falei antes, não há controle, há risco. Muito
risco. Não se compra um “pacote”, se compra um “destino”. E o destino, quem
sabe como será?
6)
A situação é
também diferente para os que vão para outros países estudar, trabalhar ou
simplesmente aventurar? O que quero saber é se a adaptação é mais fácil para
alguém que faz um simples intercâmbio comparado com alguém que embarca com
objetivo de trabalhar, ganhar muito dinheiro e mudar de vida?
Algumas variáveis são importantes
para mensurar o sucesso de uma adaptação. São elas: quantos anos você tem,
quanto tempo irá ficar, se há a possibilidade de retorno e quando, se vai acompanhado ou sozinho e a história
pregressa que deixa no Brasil. Quem que quer que vá sem ter essas respostas
claras já estará dando um passo em falso. Eu
digo o seguinte: é tão difícil adaptar-se no exterior de verdade, ser feliz,
manter seus ideais que é fundamental ter uma meta, um foco. Isso porque vontade
de voltar, desistir, largar tudo ocorrerá muitas vezes e nesse momento é
importante manter o foco. Ter uma razão para isso tudo. Portanto, deixar
noivados mal-acabados, dívidas gigantescas, traumas de infância não ajudará em nada. Isso
tudo a gente leva na mal, mesmo sem quere. Faço minhas as palavras do Amir
Klink. “Qualquer um pode chegar onde quer, desde que saiba onde está indo.”
7)
Como superar as
adversidades de viver no exterior? Qual o conselho para quem quer ser cidadão
do mundo.
Quando se fala em viver no
exterior de forma inteligente fala-se em Educação Intercultural.
Não há nada que supere essa grande sala de
aula que é nosso planeta e nossa gente. Ser cidadão do mundo é um empenho
constante de superação. Costumo dizer que a viagem é a arte do encontro – o
encontro consigo mesmo. Portanto: ser corajoso, ter metas, ter focos, ter
sonhos (e que sejam grandes e envolventes.) Mas abrir-se também, superar seus
preconceitos, seu racismo, sua ignorância. Dar lugar à confiança no ser humano
(tão desprestigiada anda a confiança no próximo, não?), permitir-se ser mais
tolerante, mais generoso, mais benevolente. O cidadão do mundo, ao meu ver,
deveria esquecer a relação hóspede/hospedeiro e colocar-se sempre na posição de
hospedeiro. É como se eu, na minha primeira vez em Salvador viesse preocupada
com o fato do povo ser gentil comigo. Por que pensar no que vou receber? Ora,
minha preocupação é em eu ser gentil com vocês. Que eu possa dar meu melhor,
marcar a vida das pessoas, agregar valor ao nosso encontro. Pensar no que eu
posso fazer, e não responsabilizar os outros por isso. Creio que isso dá mais
chances do encontro dar certo.
8)
De que forma o
seu trabalho, suas palestras ajudam brasileiros que querem embarcar rumo a uma
nova vida em outro país?
Os Treinamentos
Interculturais observam a seguinte metodologia: conhecer-se enquanto
brasileiro, conhecer o outro como estrangeiro e compreender a interação desses
pares. Isso nos leva a alguns benefícios: um baixo n° de retornos
precoces em programas internacionais; melhora na performance do participante;
alta produtividade & aproveitamento na permanência; maior ajustamento e adaptabilidade; maior satisfação dos hospedeiros, aumento significativo no sucesso dos programas e negócios
internacionais; maior produtividade/lucratividade nas negociações estrangeiras;
baixos incidentes que possam
prejudicar a organização ou o país hospedeiro; aumento da
fidedignidade/confiabilidade na empresa agenciadora junto aos parceiros
internacionais; fortalecimento da imagem e confiança da agência no mercado
local e internacional; menos problemas entre agentes internacionais e
brasileiros.
9)
Invertendo a
situação, o que os brasileiros que acolhem e lidam com estrangeiros devem saber
para recebê-los bem e, ao mesmo tempo, aproveitar ao máximo este choque de
culturas?
A mesma lógica do Treinamento
Intercultural para ser bem recebido aplica-se ao bem receber. Compreender o
outro, sua cultura, seu legado, sua história e compreender a si mesmo também.
Acho que em geral somos bons nisso. Grandes pesquisadores da Psicologia
Intercultural dizem que o Brasil é um de nossos melhores laboratórios. Mas
insisto que agências do governo, agências de intercâmbio e empresas
estrangeiras que querem colocar-se por aqui devem prestar mais atenção aos
benefícios que esta nova Psicologia tem a oferecer.
10)
E quanto à
peculiar experiência com os refugiados de guerra e exilados de Madri. Qual foi
o maior aprendizado?
O maior aprendizado pode ser
resumido numa frase que coloquei num de meus livros: A terra é meu país e a
humanidade minha família (Mahamta Ghandi). Nossas semelhanças são incríveis e
nossa diversidade é saborosa. Saber celebrá-las. Compreender a profunda
interdependência dos povos, sermos mais solidários, mais gente, mais irmãos. Na
Europa há muita discriminação com os refugiados, colocando-os sempre no lugar
do bandido, do delinqüente. Precisamos rever isso urgentemente: o refugiado não
é o algoz, é a vítima. Não está ali
porque quer, mas porque foi banido ou porque fugiu de situações horrendas.
Rever nosso conceito inclusive aqui no Brasil quando discrimina-se os migrantes
nordestinos e atribui-se a eles crimes que não cometeram. Será que existe
alguém nesse mundo que realmente opta por deixar seu país, seu berço, sua
família, suas raízes, seu idioma para viver em campos de refugiados ou
marginalizados em grandes cidades porque quer?
11)
Qual o público
alvo da palestra que a senhora realizará em Salvador. Que tema será abordado no encontro?
Estarei
falando sobre Psicologia Intercultural, sobre adaptação de brasileiros no
exterior, sobre os ganhos das experiências interculturais e sobre o que vem a
ser os cross-cultural trainings. O público convidado são todas as pessoas
interessadas nisso: sobre o estudo e a pesquisa, sobre ir para o exterior, fazer
intercâmbio, familiares de quem está no exterior ou até quem voltou também,
caso esteja num momento de readaptação.
12)
Recentemente, a
senhora realizou treinamento com nove diretores da Embratur que serão
responsáveis pelos escritórios brasileiros de Turismo (EBT) do órgão em cidades
como Frankfurt, Paris e Nova York. No que consiste este treinamento
intercultural?
Os
treinamentos interculturais realizados por mim fazem parte de uma metodologia
patenteada chamada Intercultural Trainingâ. Eles se aplicam as mais diferentes
situações: jovens que fazem intercâmbio, executivos que moram ou negociam com
culturas estrangeiras, estrangeiros no Brasil, empresas multinacionais, órgãos
do governo em contato com culturas estrangeiras. Eles podem ser voltados
exclusivamente para determinado país ( por exemplo, grupos em negociação com os
Tigres Asiáticos), para determinados objetivos (estudantes de high school),
para determinado público ( um grupo de trainees que vão para Dinamarca).
13)
O treinamento
sobre educação intercultural, baseado em idéias da Unesco pelo Programa Cultura
para a Paz, utilizado também pelo Council of Europe, tem o objetivo de preparar
alunos para a miscigenação de raças e para a administração de possíveis
conflitos com pressupostos pacíficos. Explique melhor a utilização de jogos e
teatralização para tratar de temas delicados como preconceito e discriminação?
Uso técnicas chamadas “jogos
de simulação intercultural e jogos de análise intercultural”, justamente estas
aprendidas nestes órgãos europeus. Não há nada mais ineficiente do que dizer
para uma pessoa que ela precisa se adaptar, ser mais madura ou deixar de ser
preconceituosa. Essas mudanças de comportamento não respondem à argumentação
racional. Há que fazer com que as pessoas sintam (na prática) o que estamos
falando e logo, oferecer uma teoria científica séria e coerente que dê luz a
esses fenômenos. Creio que a junção da técnica e do afeto são remédios eficazes
para a sensibilização das pessoas.
Fonte:Andrea Sebben (M.S)
cross cultural
psychologist
IACCP member - International Association for Cross-Cultural
Psychology